
Yeltsin Jacques, com o guia Antônio Carlos dos Santos, após conquistar a 100ª medalha de ouro do Brasil em Paralimpíadas. REUTERS/Athit Perawongmetha Nessas Paralimpíadas reconheci, de forma plena, a grandeza dos atletas-guias como nunca antes. Com a função de serem os olhos dos competidores que não enxergam ou têm baixa visão, eles são a personificação da empatia em performance máxima. A plenitude do verbo guiar. Assim como aprendi sobre a armadilha de expressões "capacitistas" por melhor que seja a intenção. Se você não entendeu, dá um Google. É importante. Devo isso ao jornalismo, aos espectadores da GloboNews atentos e conscientes que me alertaram durante a cobertura dos jogos nas últimas duas semanas. Guiar é acompanhar, mostrar o caminho, orientar, conduzir, proteger, amparar, socorrer. Tudo o que não temos neste momento do país. Não nas pistas de comando do país. Secamos sem água, ofuscamos sem luz, continuamos perdendo para a Covid. Sabemos a direção certa, mas estamos sem guia. Já nas pistas de corrida de Tóquio, não faltam exemplos. O texto da semana poderia ter novo título de presságio, se não fosse tão óbvio que teríamos mais uma semana de alento orgulhoso com as nossas estrelas em Tóquio. Yeltsin Jacques subiu voltou ao lugar mais alto do pódio nas Paralimpíadas, quebrando o recorde mundial e dos jogos. Venceu os 1500 metros da classe T11 (de pessoas com deficiência visual) com o tempo de 3min57s60. A façanha garantiu a desejada centésima medalha de ouro do Brasil. Foi durante o Jornal das Dez de terça-feira (31). Noticiei esse momento na GloboNews, praticamente ao vivo, e fui alertada para que não me esquecesse de destacar: aquela vitória era dupla. Ou melhor, tripla. Do Yeltsin, do Brasil e do Bira, o atleta-guia que comemorou aquela conquista como se fosse dele. E era! O Bira - apelido do paulista Carlos Antônio dos Santos - representa os esportistas que se dedicam a ajudar na realização do sonho dos outros. Para sonhar o sonho do outro, e vibrar como se fosse o seu sendo realizado. É sobre sincronia e confiança. É sobre ser exemplo mutuamente. Com disciplina. É ser apoio, conforto. Motivação. A melhor prova possível depende desse compromisso. É ser dupla, objetivo comum. Saber o que é prioridade. Guia que também treina, prepara. Determinante é a parceria. Brilhar no conforto de deixar o outro bilhar. Sucesso é compor, ser mais forte junto. Pela segunda vez, o público pode testemunhar todos os vitoriosos no pódio. Desde as Paralimpíadas de Londres 2012, os guias de atletas cegos são premiados com medalhas nos jogos. Pra não correr o risco de ser injusta, em mais um texto sobre justiça e visibilidade, conto que o Bira foi uma escolha necessária para falar sobre todos os guias. Em todas as pistas da vida. Vejam ou revejam o momento em que ele e Yeltsin Jacques cruzam a linha de chegada no Estádio Olímpico de Tóquio. Os segundos seguintes, mais especificamente, e entenderão.
source https://g1.globo.com/olha-que-legal/blog/pela-lente-da-gente/post/2021/09/04/estamos-sem-guia-nao-por-falta-de-exemplo.ghtml


